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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Quando a Falta de Esperança Recebe o Nome de Preguiça

 Que bom que você chegou 🌷


Hoje me deparei com uma notícia que me fez parar.

Uma pesquisa mostrou que aumentou significativamente o número de brasileiros que acreditam que boa parte da pobreza está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar. Em 2022, 22% pensavam assim. Em 2026, esse número chegou a 40%.

Quatro em cada dez brasileiros.

E eu fiquei pensando:

Será que é isso mesmo?

Será que estamos diante de uma multidão de pessoas simplesmente preguiçosas?

Ou será que estamos chamando de preguiça tudo aquilo que não conseguimos — ou não queremos — compreender?

Porque há palavras que explicam.

E há palavras que encerram a investigação.

“Preguiçoso” é uma delas.

Quando chamamos alguém de preguiçoso, parece que já entendemos tudo. Não precisamos mais perguntar. Não precisamos conhecer sua história. Não precisamos investigar o que aconteceu com aquela pessoa, de onde ela veio, quais recursos internos possui, quais oportunidades teve, quais feridas carrega, o que perdeu pelo caminho, quanto esforço psíquico despende apenas para continuar existindo.

Dizemos:

— É preguiça.

E encerramos o caso.

Talvez seja justamente por isso que essa palavra seja tão sedutora.

Porque ela nos poupa do encontro com a complexidade.

Atendo muitas pessoas que chegam até mim dizendo que são preguiçosas.

Ou, mais frequentemente, que passaram a vida ouvindo isso.

“Você é preguiçoso.”

“Você não vai atrás.”

“Você não quer nada com nada.”

“Você não se esforça.”

“Fulano conseguiu. Por que você não consegue?”

Mas o que encontro na clínica, muitas vezes, é algo completamente diferente.

Encontro pessoas exaustas.

Pessoas dissociadas.

Pessoas que passaram tantos anos tentando sobreviver psiquicamente que já não sabem de onde retirar energia para desejar.

Encontro pessoas que não conseguem sustentar continuidade.

Começam e param.

Desejam e recuam.

Planejam e paralisam.

Entusiasmam-se e, pouco depois, perdem completamente a força.

Vistas de fora, parecem preguiçosas.

Mas quem conhece sua estrutura psíquica talvez perceba outra coisa.

Perceba que, em muitos casos, não falta vontade.

Falta sustentação interna.

Porque não basta dizer a alguém:

— Vá em frente.

É preciso que exista, dentro dessa pessoa, uma estrutura capaz de continuar quando a excitação inicial termina.

É preciso tolerar frustração.

Suportar espera.

Atravessar o intervalo entre o desejo e a realização.

Fracassar sem desintegrar.

Ser visto sem entrar em pânico.

Arriscar sem sentir que um erro destruirá toda a identidade.

Persistir sem garantias.

E nem todos puderam construir isso.

Há pessoas que cresceram em ambientes nos quais qualquer tentativa era ridicularizada.

Outras aprenderam que aparecer era perigoso.

Algumas tiveram seus impulsos espontâneos sistematicamente interrompidos.

Foram crianças criticadas, humilhadas, invadidas, abandonadas emocionalmente ou obrigadas a se adaptar precocemente às necessidades dos adultos.

Aprenderam a não incomodar.

A não desejar demais.

A não ocupar espaço.

A não confiar em si.

Depois crescem.

E o mundo pergunta:

— Por que você não vai atrás do que quer?

Mas talvez ninguém tenha perguntado antes:

O que aconteceu cada vez que essa pessoa quis alguma coisa?

Essa pergunta muda tudo.

Porque o adulto que hoje “não corre atrás” pode ter sido a criança que aprendeu que todo movimento espontâneo em direção à vida terminava em vergonha, crítica, abandono ou fracasso.

Há corpos que parecem parados porque, em algum lugar profundo, ainda esperam o golpe.

Há pessoas que confundem movimento com perigo.

Visibilidade com exposição.

Autonomia com abandono.

Sucesso com culpa.

Desejo com punição.

E então nós olhamos para o resultado final dessa equação e dizemos:

— Preguiça.

Como se a psique humana fosse simples.

Como se bastasse querer.

Como se todos partissem do mesmo lugar.

Como se a capacidade de agir não dependesse também de uma longa construção interna.

Mas há outra coisa que tenho observado.

E essa talvez me preocupe ainda mais.

Por trás de muitos supostos preguiçosos existe uma profunda falta de esperança.

Atendo, em sua maioria, pessoas entre 20 e 60 anos.

E, entre os mais jovens, escuto algo que me atravessa.

Uma dificuldade crescente de acreditar.

Não apenas de acreditar em si mesmos.

Mas de acreditar no futuro.

Alguns falam sobre as mudanças climáticas.

Sobre eventos extremos.

Sobre o que acontecerá com o planeta.

Sobre a possibilidade de não haver água, estabilidade, segurança ou condições dignas de vida nas próximas décadas.

A chamada ansiedade climática não é simplesmente uma invenção de uma geração “frágil”. O sofrimento relacionado ao futuro climático vem sendo documentado em pesquisas internacionais e brasileiras, especialmente entre jovens.

E o que alguns me dizem, de diferentes maneiras, é:

“É como se nós não tivéssemos um futuro.”

Então eu me pergunto:

O que acontece com a capacidade de investir libido na vida quando o futuro deixa de parecer habitável?

Por que alguém faria planos para trinta anos se intimamente não consegue imaginar o mundo daqui a trinta anos?

Por que construir?

Por que acumular?

Por que sacrificar toda a juventude em nome de um amanhã no qual já não se acredita?

Talvez estejamos diante de algo que ainda não compreendemos suficientemente.

Uma geração que recebe continuamente a ordem para produzir, competir, consumir, vencer e acumular — ao mesmo tempo em que assiste ao mundo físico dar sinais de esgotamento.

Dizemos:

— Trabalhe mais.

— Produza mais.

— Consuma mais.

— Cresça mais.

— Tenha mais.

E, simultaneamente, esses jovens ouvem que os oceanos aquecem, que eventos extremos se intensificam, que ecossistemas colapsam, que espécies desaparecem, que populações inteiras podem ser deslocadas.

Há algo quase enlouquecedor nessa contradição.

Pedimos que se adaptem ao mesmo modelo de vida que eles suspeitam estar ajudando a destruir as condições futuras da própria vida.

E quando hesitam, dizemos:

— Preguiça.

Mas existe ainda outro grupo.

Pessoas que não são exatamente incapazes de trabalhar.

Elas são incapazes de encontrar sentido na forma de vida que lhes foi apresentada.

E aqui entramos em um terreno delicado.

Porque não quero romantizar a dificuldade.

Nem transformar toda incapacidade de adaptação em sinal de profundidade.

Isso também seria ingênuo.

Há, sim, pessoas irresponsáveis.

Há quem evite esforço.

Há quem espere que outros sustentem aquilo que não deseja construir.

Há quem transforme fragilidade em álibi.

A clínica não precisa negar a responsabilidade individual para reconhecer a complexidade.

Mas também é verdade que encontro pessoas profundamente sensíveis cuja alma pulsa em direções que o mundo ao redor não sabe acolher.

Pessoas que desejariam cuidar.

Pesquisar.

Criar.

Ensinar.

Escrever.

Cultivar.

Investigar.

Trabalhar com animais.

Com crianças.

Com idosos.

Com arte.

Com a terra.

Com o sofrimento humano.

Com alguma forma de reparação do mundo.

Mas vivem dentro de uma organização social que pergunta, antes de qualquer coisa:

— Quanto isso rende?

E talvez tenhamos nos acostumado tanto a essa pergunta que já não percebamos sua violência.

Porque nem tudo o que sustenta a vida gera grande retorno financeiro.

E nem tudo o que gera grande retorno financeiro sustenta a vida.

Há pessoas com enorme potência criativa que não possuem capital para começar.

Não possuem rede de apoio.

Não possuem casa própria.

Não possuem família capaz de sustentá-las durante uma transição.

Não podem passar dois anos desenvolvendo um projeto.

Não podem estudar sem trabalhar.

Não podem errar.

Não podem tentar novamente.

Não podem adoecer.

Não podem investir.

Não podem esperar.

E depois olhamos para quem teve tempo, dinheiro, contatos, segurança, educação, proteção familiar e possibilidade de fracassar cinco vezes antes de acertar — e o usamos como prova de que “quem quer consegue”.

Será?

Talvez “quem quer consegue” seja uma das frases mais cruéis que inventamos.

Porque ela transforma toda conquista em mérito exclusivamente individual e toda derrota em falha de caráter.

Ela apaga o acaso.

Apaga a classe social.

Apaga a família.

Apaga o trauma.

Apaga a saúde.

Apaga o território.

Apaga a rede de apoio.

Apaga quem cuidou dos filhos enquanto alguém estudava.

Apaga quem emprestou dinheiro.

Apaga quem abriu uma porta.

Apaga quem apresentou a pessoa certa.

Apaga o quarto silencioso onde foi possível criar.

Apaga até mesmo o direito de falhar.

Então sobra apenas o indivíduo.

Nu - diante do tribunal social.

Se venceu, mereceu.

Se não venceu, não se esforçou.

Se é pobre, talvez seja preguiçoso.

É uma visão de mundo assustadoramente simples.

E talvez seja justamente essa simplicidade que a torne tão perigosa.

Porque, quando individualizamos completamente o fracasso, o sistema desaparece.

Não precisamos mais perguntar quais condições estamos produzindo.

Não precisamos investigar por que tantos jovens adoecem.

Não precisamos discutir acesso.

Não precisamos olhar para a desigualdade.

Não precisamos perguntar que tipo de vida estamos oferecendo.

Basta culpar quem não conseguiu.

Mas, na clínica, encontro ainda outra forma de “preguiça”.

Talvez uma das mais dolorosas.

A pessoa que precisaria encontrar a coragem de descobrir quem é por trás da própria persona.

Persona, na psicologia analítica, é a máscara social.

Não no sentido de falsidade.

Precisamos de persona.

Precisamos de formas de entrar no mundo.

De desempenhar papéis.

De participar da vida coletiva.

O problema começa quando, para sermos aceitos, precisamos amputar partes essenciais de nós mesmos.

Há crianças que percebem muito cedo:

“Isso em mim não pode existir.”

Talvez sua sensibilidade incomode.

Talvez sua inteligência ameace.

Talvez sua criatividade seja ridicularizada.

Talvez sua força provoque.

Talvez sua sexualidade não corresponda ao esperado.

Talvez sua delicadeza seja desprezada.

Talvez sua curiosidade seja tratada como insolência.

Talvez sua tristeza não encontre colo.

Talvez sua espontaneidade seja excessiva para a família.

Então ela aprende.

Esconde.

Adapta.

Recorta.

Silencia.

Constrói uma personagem capaz de permanecer vinculada.

E isso funciona.

Ao menos por algum tempo.

Até que um dia a vida começa a perder energia.

A pessoa não sabe o que quer.

Não consegue começar.

Nada a entusiasma verdadeiramente.

Procrastina.

Adia.

Passa horas diante de uma tela.

Dorme demais ou de menos.

Sente-se vazia.

Compara-se.

Culpa-se.

Chama a si mesma de preguiçosa.

Mas talvez a pergunta não seja:

“Por que você não faz?”

Talvez a pergunta seja:

“Quem, dentro de você, teria que voltar a existir para que a energia voltasse a circular?”

Porque a libido não investe indefinidamente numa vida que não reconhece como própria.

Há um limite para a adaptação.

Podemos obrigar alguém a cumprir funções.

Mas não podemos obrigar a alma a desejar aquilo que a violenta.

E, em determinados momentos, aquilo que parece preguiça pode ser uma espécie de greve silenciosa da psique.

A pessoa diz que quer.

Sua consciência diz que deveria.

Sua família exige.

A sociedade espera.

A persona concorda.

Mas algo profundo retira a energia.

Não porque o Self seja uma espécie de entidade mágica que nos conduza facilmente ao “destino”.

Não acredito nisso.

Mas porque existe, em nós, uma tensão entre adaptação e verdade psíquica.

E há vidas construídas tão longe do próprio centro que toda ação se transforma em esforço brutal.

A pessoa precisa empurrar a si mesma o tempo inteiro.

Precisa se violentar para levantar.

Se violentar para trabalhar.

Se violentar para sorrir.

Se violentar para socializar.

Se violentar para corresponder.

E nós admiramos sua funcionalidade.

Até o dia em que ela colapsa.

Então perguntamos:

— Mas o que aconteceu? Ela estava tão bem.

Talvez não estivesse.

Talvez estivesse apenas adaptada.

E adaptação não é sinônimo de saúde.

Assim como inércia não é sinônimo de preguiça.

Talvez precisemos recuperar a capacidade de fazer perguntas antes de emitir sentenças.

O que aconteceu com essa pessoa?

Ela está exausta?

Está deprimida?

Está dissociada?

Está aterrorizada?

Nunca pôde construir confiança em si?

Não consegue imaginar um futuro?

Foi ensinada a fracassar antes mesmo de tentar?

Está vivendo uma vida que não reconhece como própria?

Possui meios materiais para transformar potência em ação?

Tem rede de apoio?

Tem saúde?

Tem tempo?

Tem segurança?

Tem onde cair?

Porque até para correr riscos é preciso possuir algum chão.

E talvez este seja um dos grandes problemas do nosso tempo:

exigimos movimento de pessoas às quais retiramos o chão.

Depois julgamos a imobilidade.

Há algo profundamente cruel nisso.

Talvez a “preguiça” exista.

Claro que existe.

Mas desconfio de toda sociedade que usa explicações morais simples para fenômenos humanos complexos.

Desconfio ainda mais quando os julgados são justamente aqueles que têm menos poder.

Porque chamar alguém de preguiçoso pode ser apenas uma descrição.

Mas também pode ser uma forma de não vê-lo.

De não escutar sua história.

De não reconhecer seu sofrimento.

De não admitir nossas desigualdades.

De não questionar o mundo que construímos.

E talvez seja por isso que esse número tenha me inquietado tanto.

Não apenas porque 40% dos brasileiros atribuem boa parte da pobreza à preguiça.

Mas porque esse dado talvez diga algo sobre a pobreza do nosso próprio olhar.

Um olhar que perdeu profundidade.

Que vê o comportamento, mas não a estrutura.

Que vê a paralisia, mas não o medo.

Que vê a desistência, mas não a sucessão de derrotas.

Que vê a falta de iniciativa, mas não a ausência de esperança.

Que vê o fracasso, mas não pergunta quais portas estiveram realmente abertas.

Que vê a máscara, mas não imagina o que precisou ser amputado para que aquela máscara pudesse existir.

Talvez, antes de perguntarmos por que algumas pessoas não se esforçam mais, devêssemos ter coragem de perguntar:

Que mundo estamos oferecendo para que valha a pena levantar da cama e lutar por ele?

E mais:

quantas pessoas chamadas de preguiçosas estão, na verdade, esperando encontrar uma razão para voltar a desejar?

Porque há uma diferença imensa entre não querer fazer esforço e não conseguir mais acreditar.

E uma sociedade que já não sabe distinguir uma coisa da outra talvez esteja muito mais adoecida do que aqueles que ela julga.

 

2 comentários:

  1. Muito bom, uma verdadeira visão Humanista, que não vê a pessoa como objeto e sim como sujeito.

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    1. Em uma sociedade onde não somos mais cidadãos, mas consumidores, está cada vez mais fácil das propagandas de massa se infiltrarem no inconsciente, transformando o sujeito numa espécie de réplica dos pensamentos implantados subliminarmente por quem entende de propaganda. Então não me surpreende os números citados acima.

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