Que bom que você chegou 🌷
Hoje me
deparei com uma notícia que me fez parar.
Uma
pesquisa mostrou que aumentou significativamente o número de brasileiros que
acreditam que boa parte da pobreza está ligada à preguiça de pessoas que não
querem trabalhar. Em 2022, 22% pensavam assim. Em 2026, esse número chegou a
40%.
Quatro em
cada dez brasileiros.
E eu
fiquei pensando:
Será que
é isso mesmo?
Será que
estamos diante de uma multidão de pessoas simplesmente preguiçosas?
Ou será
que estamos chamando de preguiça tudo aquilo que não conseguimos — ou não
queremos — compreender?
Porque há
palavras que explicam.
E há
palavras que encerram a investigação.
“Preguiçoso”
é uma delas.
Quando
chamamos alguém de preguiçoso, parece que já entendemos tudo. Não precisamos
mais perguntar. Não precisamos conhecer sua história. Não precisamos investigar
o que aconteceu com aquela pessoa, de onde ela veio, quais recursos internos
possui, quais oportunidades teve, quais feridas carrega, o que perdeu pelo
caminho, quanto esforço psíquico despende apenas para continuar existindo.
Dizemos:
— É
preguiça.
E
encerramos o caso.
Talvez
seja justamente por isso que essa palavra seja tão sedutora.
Porque
ela nos poupa do encontro com a complexidade.
Atendo
muitas pessoas que chegam até mim dizendo que são preguiçosas.
Ou, mais
frequentemente, que passaram a vida ouvindo isso.
“Você é
preguiçoso.”
“Você não
vai atrás.”
“Você não
quer nada com nada.”
“Você não
se esforça.”
“Fulano
conseguiu. Por que você não consegue?”
Mas o que
encontro na clínica, muitas vezes, é algo completamente diferente.
Encontro
pessoas exaustas.
Pessoas
dissociadas.
Pessoas
que passaram tantos anos tentando sobreviver psiquicamente que já não sabem de
onde retirar energia para desejar.
Encontro
pessoas que não conseguem sustentar continuidade.
Começam e
param.
Desejam e
recuam.
Planejam
e paralisam.
Entusiasmam-se
e, pouco depois, perdem completamente a força.
Vistas de
fora, parecem preguiçosas.
Mas quem
conhece sua estrutura psíquica talvez perceba outra coisa.
Perceba
que, em muitos casos, não falta vontade.
Falta
sustentação interna.
Porque
não basta dizer a alguém:
— Vá em
frente.
É preciso
que exista, dentro dessa pessoa, uma estrutura capaz de continuar quando a
excitação inicial termina.
É preciso
tolerar frustração.
Suportar
espera.
Atravessar
o intervalo entre o desejo e a realização.
Fracassar
sem desintegrar.
Ser visto
sem entrar em pânico.
Arriscar
sem sentir que um erro destruirá toda a identidade.
Persistir
sem garantias.
E nem
todos puderam construir isso.
Há
pessoas que cresceram em ambientes nos quais qualquer tentativa era
ridicularizada.
Outras
aprenderam que aparecer era perigoso.
Algumas
tiveram seus impulsos espontâneos sistematicamente interrompidos.
Foram
crianças criticadas, humilhadas, invadidas, abandonadas emocionalmente ou
obrigadas a se adaptar precocemente às necessidades dos adultos.
Aprenderam
a não incomodar.
A não
desejar demais.
A não
ocupar espaço.
A não confiar
em si.
Depois
crescem.
E o mundo
pergunta:
— Por que
você não vai atrás do que quer?
Mas
talvez ninguém tenha perguntado antes:
O que
aconteceu cada vez que essa pessoa quis alguma coisa?
Essa
pergunta muda tudo.
Porque o
adulto que hoje “não corre atrás” pode ter sido a criança que aprendeu que todo
movimento espontâneo em direção à vida terminava em vergonha, crítica, abandono
ou fracasso.
Há corpos
que parecem parados porque, em algum lugar profundo, ainda esperam o golpe.
Há
pessoas que confundem movimento com perigo.
Visibilidade
com exposição.
Autonomia
com abandono.
Sucesso
com culpa.
Desejo
com punição.
E então
nós olhamos para o resultado final dessa equação e dizemos:
—
Preguiça.
Como se a
psique humana fosse simples.
Como se
bastasse querer.
Como se
todos partissem do mesmo lugar.
Como se a
capacidade de agir não dependesse também de uma longa construção interna.
Mas há
outra coisa que tenho observado.
E essa
talvez me preocupe ainda mais.
Por trás
de muitos supostos preguiçosos existe uma profunda falta de esperança.
Atendo,
em sua maioria, pessoas entre 20 e 60 anos.
E, entre
os mais jovens, escuto algo que me atravessa.
Uma
dificuldade crescente de acreditar.
Não
apenas de acreditar em si mesmos.
Mas de
acreditar no futuro.
Alguns
falam sobre as mudanças climáticas.
Sobre
eventos extremos.
Sobre o
que acontecerá com o planeta.
Sobre a
possibilidade de não haver água, estabilidade, segurança ou condições dignas de
vida nas próximas décadas.
A chamada
ansiedade climática não é simplesmente uma invenção de uma geração “frágil”. O
sofrimento relacionado ao futuro climático vem sendo documentado em pesquisas
internacionais e brasileiras, especialmente entre jovens.
E o que
alguns me dizem, de diferentes maneiras, é:
“É como
se nós não tivéssemos um futuro.”
Então eu
me pergunto:
O que
acontece com a capacidade de investir libido na vida quando o futuro deixa de
parecer habitável?
Por que
alguém faria planos para trinta anos se intimamente não consegue imaginar o
mundo daqui a trinta anos?
Por que construir?
Por que
acumular?
Por que
sacrificar toda a juventude em nome de um amanhã no qual já não se acredita?
Talvez
estejamos diante de algo que ainda não compreendemos suficientemente.
Uma
geração que recebe continuamente a ordem para produzir, competir, consumir,
vencer e acumular — ao mesmo tempo em que assiste ao mundo físico dar sinais de
esgotamento.
Dizemos:
—
Trabalhe mais.
— Produza
mais.
— Consuma
mais.
— Cresça
mais.
— Tenha
mais.
E,
simultaneamente, esses jovens ouvem que os oceanos aquecem, que eventos
extremos se intensificam, que ecossistemas colapsam, que espécies desaparecem,
que populações inteiras podem ser deslocadas.
Há algo
quase enlouquecedor nessa contradição.
Pedimos
que se adaptem ao mesmo modelo de vida que eles suspeitam estar ajudando a
destruir as condições futuras da própria vida.
E quando
hesitam, dizemos:
—
Preguiça.
Mas
existe ainda outro grupo.
Pessoas
que não são exatamente incapazes de trabalhar.
Elas são
incapazes de encontrar sentido na forma de vida que lhes foi apresentada.
E aqui
entramos em um terreno delicado.
Porque
não quero romantizar a dificuldade.
Nem
transformar toda incapacidade de adaptação em sinal de profundidade.
Isso
também seria ingênuo.
Há, sim,
pessoas irresponsáveis.
Há quem
evite esforço.
Há quem
espere que outros sustentem aquilo que não deseja construir.
Há quem
transforme fragilidade em álibi.
A clínica
não precisa negar a responsabilidade individual para reconhecer a complexidade.
Mas
também é verdade que encontro pessoas profundamente sensíveis cuja alma pulsa
em direções que o mundo ao redor não sabe acolher.
Pessoas
que desejariam cuidar.
Pesquisar.
Criar.
Ensinar.
Escrever.
Cultivar.
Investigar.
Trabalhar
com animais.
Com
crianças.
Com
idosos.
Com arte.
Com a
terra.
Com o
sofrimento humano.
Com
alguma forma de reparação do mundo.
Mas vivem
dentro de uma organização social que pergunta, antes de qualquer coisa:
— Quanto
isso rende?
E talvez
tenhamos nos acostumado tanto a essa pergunta que já não percebamos sua
violência.
Porque
nem tudo o que sustenta a vida gera grande retorno financeiro.
E nem
tudo o que gera grande retorno financeiro sustenta a vida.
Há
pessoas com enorme potência criativa que não possuem capital para começar.
Não
possuem rede de apoio.
Não
possuem casa própria.
Não
possuem família capaz de sustentá-las durante uma transição.
Não podem
passar dois anos desenvolvendo um projeto.
Não podem
estudar sem trabalhar.
Não podem
errar.
Não podem
tentar novamente.
Não podem
adoecer.
Não podem
investir.
Não podem
esperar.
E depois
olhamos para quem teve tempo, dinheiro, contatos, segurança, educação, proteção
familiar e possibilidade de fracassar cinco vezes antes de acertar — e o usamos
como prova de que “quem quer consegue”.
Será?
Talvez
“quem quer consegue” seja uma das frases mais cruéis que inventamos.
Porque
ela transforma toda conquista em mérito exclusivamente individual e toda
derrota em falha de caráter.
Ela apaga
o acaso.
Apaga a
classe social.
Apaga a
família.
Apaga o
trauma.
Apaga a
saúde.
Apaga o
território.
Apaga a
rede de apoio.
Apaga
quem cuidou dos filhos enquanto alguém estudava.
Apaga
quem emprestou dinheiro.
Apaga
quem abriu uma porta.
Apaga
quem apresentou a pessoa certa.
Apaga o
quarto silencioso onde foi possível criar.
Apaga até
mesmo o direito de falhar.
Então sobra
apenas o indivíduo.
Nu - diante
do tribunal social.
Se
venceu, mereceu.
Se não
venceu, não se esforçou.
Se é
pobre, talvez seja preguiçoso.
É uma
visão de mundo assustadoramente simples.
E talvez
seja justamente essa simplicidade que a torne tão perigosa.
Porque,
quando individualizamos completamente o fracasso, o sistema desaparece.
Não
precisamos mais perguntar quais condições estamos produzindo.
Não
precisamos investigar por que tantos jovens adoecem.
Não
precisamos discutir acesso.
Não
precisamos olhar para a desigualdade.
Não
precisamos perguntar que tipo de vida estamos oferecendo.
Basta
culpar quem não conseguiu.
Mas, na
clínica, encontro ainda outra forma de “preguiça”.
Talvez
uma das mais dolorosas.
A pessoa
que precisaria encontrar a coragem de descobrir quem é por trás da própria
persona.
Persona,
na psicologia analítica, é a máscara social.
Não no
sentido de falsidade.
Precisamos
de persona.
Precisamos
de formas de entrar no mundo.
De
desempenhar papéis.
De
participar da vida coletiva.
O problema
começa quando, para sermos aceitos, precisamos amputar partes essenciais de nós
mesmos.
Há
crianças que percebem muito cedo:
“Isso em
mim não pode existir.”
Talvez
sua sensibilidade incomode.
Talvez
sua inteligência ameace.
Talvez
sua criatividade seja ridicularizada.
Talvez
sua força provoque.
Talvez
sua sexualidade não corresponda ao esperado.
Talvez
sua delicadeza seja desprezada.
Talvez
sua curiosidade seja tratada como insolência.
Talvez
sua tristeza não encontre colo.
Talvez
sua espontaneidade seja excessiva para a família.
Então ela
aprende.
Esconde.
Adapta.
Recorta.
Silencia.
Constrói
uma personagem capaz de permanecer vinculada.
E isso
funciona.
Ao menos
por algum tempo.
Até que
um dia a vida começa a perder energia.
A pessoa
não sabe o que quer.
Não
consegue começar.
Nada a
entusiasma verdadeiramente.
Procrastina.
Adia.
Passa
horas diante de uma tela.
Dorme
demais ou de menos.
Sente-se
vazia.
Compara-se.
Culpa-se.
Chama a
si mesma de preguiçosa.
Mas
talvez a pergunta não seja:
“Por que
você não faz?”
Talvez a
pergunta seja:
“Quem,
dentro de você, teria que voltar a existir para que a energia voltasse a
circular?”
Porque a
libido não investe indefinidamente numa vida que não reconhece como própria.
Há um
limite para a adaptação.
Podemos
obrigar alguém a cumprir funções.
Mas não
podemos obrigar a alma a desejar aquilo que a violenta.
E, em
determinados momentos, aquilo que parece preguiça pode ser uma espécie de greve
silenciosa da psique.
A pessoa
diz que quer.
Sua
consciência diz que deveria.
Sua
família exige.
A
sociedade espera.
A persona
concorda.
Mas algo
profundo retira a energia.
Não
porque o Self seja uma espécie de entidade mágica que nos conduza facilmente ao
“destino”.
Não
acredito nisso.
Mas
porque existe, em nós, uma tensão entre adaptação e verdade psíquica.
E há
vidas construídas tão longe do próprio centro que toda ação se transforma em
esforço brutal.
A pessoa
precisa empurrar a si mesma o tempo inteiro.
Precisa
se violentar para levantar.
Se
violentar para trabalhar.
Se violentar
para sorrir.
Se
violentar para socializar.
Se
violentar para corresponder.
E nós
admiramos sua funcionalidade.
Até o dia
em que ela colapsa.
Então
perguntamos:
— Mas o
que aconteceu? Ela estava tão bem.
Talvez
não estivesse.
Talvez
estivesse apenas adaptada.
E
adaptação não é sinônimo de saúde.
Assim
como inércia não é sinônimo de preguiça.
Talvez
precisemos recuperar a capacidade de fazer perguntas antes de emitir sentenças.
O que
aconteceu com essa pessoa?
Ela está
exausta?
Está
deprimida?
Está dissociada?
Está
aterrorizada?
Nunca
pôde construir confiança em si?
Não
consegue imaginar um futuro?
Foi
ensinada a fracassar antes mesmo de tentar?
Está
vivendo uma vida que não reconhece como própria?
Possui
meios materiais para transformar potência em ação?
Tem rede
de apoio?
Tem
saúde?
Tem
tempo?
Tem
segurança?
Tem onde
cair?
Porque
até para correr riscos é preciso possuir algum chão.
E talvez
este seja um dos grandes problemas do nosso tempo:
exigimos
movimento de pessoas às quais retiramos o chão.
Depois
julgamos a imobilidade.
Há algo
profundamente cruel nisso.
Talvez a
“preguiça” exista.
Claro que
existe.
Mas
desconfio de toda sociedade que usa explicações morais simples para fenômenos
humanos complexos.
Desconfio
ainda mais quando os julgados são justamente aqueles que têm menos poder.
Porque
chamar alguém de preguiçoso pode ser apenas uma descrição.
Mas
também pode ser uma forma de não vê-lo.
De não
escutar sua história.
De não
reconhecer seu sofrimento.
De não
admitir nossas desigualdades.
De não
questionar o mundo que construímos.
E talvez
seja por isso que esse número tenha me inquietado tanto.
Não
apenas porque 40% dos brasileiros atribuem boa parte da pobreza à preguiça.
Mas
porque esse dado talvez diga algo sobre a pobreza do nosso próprio olhar.
Um olhar
que perdeu profundidade.
Que vê o
comportamento, mas não a estrutura.
Que vê a
paralisia, mas não o medo.
Que vê a
desistência, mas não a sucessão de derrotas.
Que vê a
falta de iniciativa, mas não a ausência de esperança.
Que vê o
fracasso, mas não pergunta quais portas estiveram realmente abertas.
Que vê a
máscara, mas não imagina o que precisou ser amputado para que aquela máscara
pudesse existir.
Talvez,
antes de perguntarmos por que algumas pessoas não se esforçam mais, devêssemos
ter coragem de perguntar:
Que mundo
estamos oferecendo para que valha a pena levantar da cama e lutar por ele?
E mais:
quantas
pessoas chamadas de preguiçosas estão, na verdade, esperando encontrar uma
razão para voltar a desejar?
Porque há
uma diferença imensa entre não querer fazer esforço e não conseguir mais
acreditar.
E uma
sociedade que já não sabe distinguir uma coisa da outra talvez esteja muito
mais adoecida do que aqueles que ela julga.