quinta-feira, 23 de julho de 2026

O Trauma Continua Dentro de Nós

 Que bom que você chegou 🌻

  

Trauma é aquilo que continua acontecendo dentro de nós

Costumamos pensar no trauma apenas como um acontecimento de grandes proporções: um abuso, uma violência extrema, uma perda devastadora.

Mas nem sempre o trauma está naquilo que, visto de fora, parece extraordinário.

Ele pode estar na repetição de uma forma de tratamento que humilha.
Naquele apelido que todos consideravam uma brincadeira, mas que atingia sempre o mesmo lugar.
Na sensação persistente de não ser visto.
Na experiência de falar e não ser escutado.
Na percepção de que, para continuar pertencendo, era preciso esconder partes inteiras de si.

O trauma não pode ser medido apenas pelo tamanho aparente do acontecimento.

Ele precisa ser compreendido a partir daquilo que a experiência produziu dentro do sujeito. Uma situação pode parecer pequena para quem observa e, ainda assim, encontrar uma psique sem recursos, sem proteção e sem um ambiente capaz de ajudá-la a elaborar o que aconteceu.

Traumático é aquilo que não pôde ser integrado.

Aquilo que excedeu a capacidade psíquica daquele momento e, por isso, permaneceu como uma marca viva, uma experiência que terminou no tempo externo, mas que continua acontecendo internamente.

Nossa sociedade, porém, ainda é quase analfabeta quando se trata da complexidade psicológica.

Muito do que imaginamos saber sobre a psique é raso, fragmentado ou transmitido de maneira equivocada. Conceitos complexos são reduzidos a frases rápidas, diagnósticos improvisados e conselhos distribuídos em vídeos de poucos segundos.

Esse conhecimento superficial, quando aplicado à dor real de alguém, nem sempre ajuda.

Às vezes atrapalha.

Às vezes, sem intenção, retraumatiza.

Uma das coisas mais cruéis que podem ser ditas a alguém que sofre é:

“Mas você tem uma vida boa. Não tem do que reclamar.”

Essa frase não acolhe. Ela apaga.

Ela comunica ao sujeito que sua experiência interna não corresponde àquilo que deveria sentir. Como se as condições visíveis de uma vida fossem suficientes para explicar tudo o que se passa em seu interior.

Mas uma vida aparentemente organizada não significa uma psique organizada.

Ter trabalho, família, casa ou condições materiais não impede que alguém carregue regiões internas profundamente feridas. O sofrimento não obedece a uma contabilidade externa. Não desaparece porque existem outras coisas pelas quais a pessoa “deveria agradecer”.

Para saber exatamente o que se passa dentro do outro, seria necessário ser o outro. Seria preciso, como diziam os antigos, caminhar com seus sapatos — mas também carregar sua história, habitar seu corpo, possuir suas memórias e ter sido atravessado pelas mesmas ausências.

O outro é realmente um outro.

Essa afirmação parece simples, mas não é.

A cultura ocidental tem enorme dificuldade em reconhecer a alteridade. Frequentemente imaginamos conhecer o outro quando, na realidade, projetamos sobre ele nossas próprias medidas, valores e possibilidades.

Dizemos:

“Eu, no lugar dela, faria diferente.”

Mas ninguém está verdadeiramente no lugar do outro.

E talvez essa ingenuidade não se limite ao modo como olhamos para as outras pessoas. Ela também aparece na relação que estabelecemos conosco.

Imaginamos que somos isso ou aquilo. Construímos uma imagem sobre quem somos e passamos a viver como se essa imagem fosse a totalidade de nosso ser.

Mas grande parte dessa identidade pode ter sido formada por aquilo que ouvimos sobre nós.

A criança chamada repetidamente de fraca talvez cresça acreditando que sua sensibilidade é fraqueza.

Aquela tratada como difícil pode passar a vida tentando não incomodar.

A que nunca foi percebida pode construir toda a sua existência em torno da necessidade de ser reconhecida.

Mas será que somos realmente aquilo que disseram a nosso respeito?

Será que somos exatamente aquilo que pensamos ser?

Será que somos apenas a imagem com a qual aprendemos a nos identificar?

Da mesma forma, não somos apenas aquilo que nos aconteceu.

Podemos, contudo, ficar identificados com o acontecimento.

Podemos nos colar à imagem daquele que foi humilhado, abandonado, rejeitado ou violentado. Podemos passar a olhar para toda a nossa existência a partir dessa experiência, como se tudo aquilo que somos tivesse sido definido por ela.

Isso não acontece porque o sujeito escolheu permanecer sofrendo.

A identificação traumática não é uma decisão consciente. Ela se forma porque uma quantidade imensa de energia psíquica e corporal ficou aprisionada naquela experiência.

Uma parte da vida permaneceu ali.

Por isso é tão difícil simplesmente se afastar mental ou emocionalmente do que aconteceu.

Quando alguém traumatizado tenta falar sobre sua dor e recebe respostas como:

“Encontre a sua força.”

“Não dê atenção à sua parte sofredora.”

“Você precisa se equilibrar.”

“Pense positivo.”

“Pare de pensar nisso.”

o que se produz não é necessariamente fortalecimento. Muitas vezes, produz-se mais solidão.

A pessoa traumatizada geralmente já sabe que precisa seguir adiante. Ela já tentou parar de pensar. Já tentou esquecer. Já tentou se controlar. Já tentou ser forte.

O problema é que algo retorna.

Retorna em pensamentos, sensações, reações corporais, sonhos, escolhas, vínculos e repetições. Retorna sem que o sujeito consiga simplesmente determinar que cesse.

Porque não se trata apenas de uma ideia que poderia ser substituída por outra.

Trata-se de uma organização psíquica.

Podemos observar algo semelhante em experiências muito mais comuns.

Alguém diz:

“Você precisa cuidar melhor da alimentação.”

“Você precisa emagrecer.”

“Você precisa estudar.”

“Você precisa caminhar.”

Tudo isso pode ser verdadeiro. Mas será que saber o que deveria ser feito é suficiente para conseguir fazê-lo?

Se fosse simples, todos se alimentariam de maneira adequada, fariam exercícios diariamente, estudariam, descansariam e organizariam perfeitamente suas vidas.

Por que não fazemos aquilo que sabemos que nos faria bem?

Porque a energia psíquica — que também é corporal — não se encontra inteiramente disponível.

Ela pode estar ocupada sustentando defesas, contendo angústias, evitando colapsos, mantendo adaptações ou tentando impedir que determinadas experiências retornem à consciência.

O mesmo acontece no trauma.

Uma quantidade significativa de energia permanece ligada ao que aconteceu. O passado não está apenas guardado como uma lembrança. Ele continua participando da organização da vida presente.

É por isso que, muitas vezes, compreender intelectualmente não basta.

A pessoa pode saber que não teve culpa. Pode saber que o agressor estava errado. Pode reconhecer que o acontecimento passou. E, ainda assim, seu corpo e sua estrutura psíquica podem continuar reagindo como se algo ainda estivesse em curso.

A análise profunda e estrutural não exige que o sujeito simplesmente abandone sua dor.

Ela busca compreender por que essa dor precisou permanecer, o que ela passou a organizar, quais defesas se formaram ao seu redor e quais partes da personalidade ficaram aprisionadas na experiência.

O objetivo não é apagar o passado.

É criar condições para que a energia que ficou retida possa voltar a circular.

É importante, contudo, compreender que não somos apenas a parte que sofreu.

Há algo em nós que foi ferido, mas há também algo que não se reduz à ferida.

Quando toda a identidade se organiza ao redor do trauma, o acontecimento continua ocupando o centro da vida. O agressor, a humilhação, o abandono ou a violência permanecem determinando quem o sujeito acredita ser.

Afastar-se dessa identificação não significa negar o que aconteceu.

Não significa perdoar à força.

Não significa minimizar a dor.

Significa começar, pouco a pouco, a retirar do acontecimento o poder de definir a totalidade de uma existência.

Mas esse movimento não acontece por meio de ordens, frases motivacionais ou exigências de superação.

Às vezes, o primeiro movimento de cura não é avançar.

É finalmente encontrar um lugar no qual seja possível parar.

Um ambiente suficientemente acolhedor para chorar aquilo que ainda não pôde ser chorado.

Porque, quando a dor aconteceu, talvez não houvesse quem a recebesse.

Talvez fosse necessário amenizá-la, negá-la ou dissociá-la para continuar vivendo. Talvez o sujeito tenha precisado funcionar quando, internamente, algo havia desmoronado.

Nossa sociedade não costuma oferecer esse tipo de acolhimento.

Ela exige força, mas confunde força com produtividade.

Confunde saúde com funcionamento.

Confunde maturidade com capacidade de suportar tudo silenciosamente.

Exige que o sujeito continue trabalhando, consumindo, produzindo e sorrindo, mesmo quando partes inteiras de sua vida psíquica permanecem paralisadas.

Mas força verdadeira não é ausência de sofrimento.

Também não é a capacidade de ignorar aquilo que dói.

Às vezes, força é poder se aproximar da própria ferida sem ser novamente engolido por ela.

É encontrar alguém que não apresse, não julgue e não transforme a dor em uma lição rápida.

É poder reconhecer:

Isso aconteceu comigo.
Isso deixou marcas em mim.
Mas isso não contém tudo o que sou.

O trauma deixa marcas.

A análise começa quando essas marcas deixam de ser tratadas como fraqueza e passam a ser escutadas como parte de uma história que ainda procura elaboração.

E talvez seja justamente ali, onde a vida parece ter ficado presa, que exista também uma vida esperando para voltar a circular.

 

Mais um ensaio do Blog Psimbolom escrito por Luciana Paula da Silva. 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Quando a crueldade se veste de espiritualidade

 Que bom que você chegou 🌹


Dizem que a maldade que sofremos é algo que fizemos em outras vidas, retornando.

Dizem que as doenças pelas quais passamos são carma. Que são lições não aprendidas em existências anteriores. Que as perdas, as violências, os abusos, os acidentes, as desgraças, seriam uma espécie de devolução do destino por algum mal que teríamos infligido a alguém em outra vida.

E eu fico pensando no quanto essa ideia, quando repetida de modo automático, pode se tornar cruel.

Porque, se uma pessoa não tem memória do que fez, que sentido há em castigá-la?

Até Naruto, em sua linguagem simbólica simples e profunda, percebeu o absurdo de punir alguém por uma culpa que não pode ser integrada à consciência (veja o início da 9° séria da 1° parte da coleção). Castigar alguém sem memória do próprio ato não produz responsabilidade. Produz apenas sofrimento cego.

É como colocar um ladrão na cadeia depois de uma amnésia profunda, quando ele já não sabe quem foi, o que fez, contra quem fez, por que fez. A punição pode até satisfazer o desejo de vingança de alguém, mas não gera consciência. Não gera reparação. Não gera elaboração.

E, se isso já parece problemático quando falamos de adultos, torna-se ainda mais brutal quando falamos de crianças.

Quando uma criança passa por uma situação cruel e alguém, em nome de uma suposta espiritualidade, diz: “ela está pagando por algum erro que cometeu em outra vida”, algo muito grave se revela.

Não é a alma falando.

É a crueldade falando através de uma doutrina.

Porque uma alma minimamente desperta não olha para uma criança ferida e pergunta: “o que ela fez para merecer isso?”

Uma alma desperta pergunta: “o que nós podemos fazer para protegê-la?”

Essa é a diferença.

A espiritualidade imatura quer explicar o sofrimento para não ter que se implicar diante dele. Ela cria uma narrativa de justiça invisível para suportar a brutalidade do mundo sem precisar sentir o horror que aquilo causa.

Mas, muitas vezes, essa explicação não é sabedoria. É defesa.

É uma forma de dizer: “se isso aconteceu com você, é porque havia uma razão.” E, com isso, o sofrimento deixa de convocar cuidado e passa a ser tratado como sentença.

A pessoa ferida deixa de ser acolhida e passa a ser vista como culpada.

A criança abusada deixa de ser protegida e passa a ser colocada sob suspeita metafísica.

O doente deixa de ser cuidado e passa a ser interpretado como alguém que falhou em algum ponto invisível da existência.

Isso não é espiritualidade profunda.

Isso é violência simbólica.

É o ego tentando organizar o intolerável através de uma teoria que transforma vítimas em devedores. E talvez essa seja uma das formas mais refinadas de crueldade: aquela que não precisa bater, porque já consegue ferir com explicações.

Quando alguém diz, diante da dor do outro, “é carma”, essa pessoa talvez não perceba que pode estar usando uma crença para se desviar do humano.

Porque o humano verdadeiro não começa na explicação.

Começa na presença.

Começa na capacidade de permanecer diante da dor sem imediatamente moralizá-la, justificá-la, espiritualizá-la ou transformá-la em lição.

É claro que podemos pensar em repetição, destino, padrões arquetípicos, heranças transgeracionais, vínculos inconscientes, forças que retornam. Mas uma coisa é estudar o retorno dos padrões. Outra, completamente diferente, é dizer a alguém ferido que ele mereceu o que viveu.

A primeira atitude pode abrir consciência.

A segunda pode destruir uma alma já ferida.

Há uma diferença profunda entre perguntar “o que esta experiência está tentando revelar?” e afirmar “você está pagando por algo”.

A primeira pergunta mantém a dignidade do sujeito.

A segunda o condena.

E talvez seja justamente aí que precisamos separar espiritualidade de sadismo metafísico.

Porque, em muitas bocas, a palavra carma não serve à consciência. Serve à indiferença. Serve à superioridade moral. Serve ao alívio de quem não quer sentir a dor do mundo.

Se a criança sofre, é carma.

Se a mulher é violentada, é carma.

Se alguém adoece, é carma.

Se alguém nasce em meio à miséria, é carma.

Se alguém perde tudo, é carma.

E assim a crueldade permanece intacta, porque já não precisa ser enfrentada. Basta dizer que tudo tem uma causa invisível e seguir adiante.

Mas que tipo de alma se tranquiliza diante disso?

Que tipo de consciência olha para o sofrimento extremo e encontra conforto na ideia de que a vítima mereceu?

Talvez essa não seja uma alma desperta.

Talvez seja apenas um mamífero assustado tentando organizar o caos sem precisar amar.

Porque amar exige mais.

Amar exige suportar a pergunta sem resposta imediata.

Amar exige ver a injustiça sem correr para justificá-la.

Amar exige proteger a criança antes de explicar o universo.

Amar exige reconhecer que há crueldade no mundo — e que nem toda crueldade pode ser transformada em lição sem que cometamos uma segunda violência contra quem já sofreu a primeira.

Num mundo onde nem todos parecem plenamente humanos, a crueldade não é abstração.

A crueldade é sangue nas ruas.

É realidade diária.

É criança abandonada.

É corpo violado.

É fome.

É guerra.

É doença sem cuidado.

É humilhação.

É o forte esmagando o frágil e ainda encontrando uma doutrina para dizer que o frágil mereceu.

E talvez o mais assustador seja isso: a dor do mundo não desperta a todos.

Para alguns, ela desperta compaixão.

Para outros, desperta julgamento.

Para alguns, ela abre a alma.

Para outros, oferece uma oportunidade de se sentirem superiores.

E é por isso que precisamos ter muito cuidado com as explicações espirituais que damos ao sofrimento alheio.

Porque, às vezes, aquilo que chamamos de sabedoria é apenas incapacidade de compaixão.

Às vezes, aquilo que chamamos de lei espiritual é apenas uma forma de não tocar a ferida.

Às vezes, aquilo que chamamos de carma é só o nome elegante que damos à nossa recusa de nos implicarmos diante da dor.

Talvez existam padrões que retornam.

Talvez existam consequências que atravessam gerações.

Talvez existam marcas que não começam nesta vida.

Mas nada disso autoriza a crueldade.

Nada disso nos dá o direito de olhar para uma vítima e dizer: “você mereceu”.

A alma desperta não usa o mistério para condenar.

A alma desperta se inclina diante do sofrimento e pergunta:

“Como posso ajudar a interromper essa repetição?”

Porque talvez a verdadeira espiritualidade não esteja em explicar por que alguém caiu.

Talvez esteja em decidir não pisar em quem já está no chão.

 

Mais um texto do blog Psimbolom. 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Quando a Falta de Esperança Recebe o Nome de Preguiça

 Que bom que você chegou 🌷


Hoje me deparei com uma notícia que me fez parar.

Uma pesquisa mostrou que aumentou significativamente o número de brasileiros que acreditam que boa parte da pobreza está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar. Em 2022, 22% pensavam assim. Em 2026, esse número chegou a 40%.

Quatro em cada dez brasileiros.

E eu fiquei pensando:

Será que é isso mesmo?

Será que estamos diante de uma multidão de pessoas simplesmente preguiçosas?

Ou será que estamos chamando de preguiça tudo aquilo que não conseguimos — ou não queremos — compreender?

Porque há palavras que explicam.

E há palavras que encerram a investigação.

“Preguiçoso” é uma delas.

Quando chamamos alguém de preguiçoso, parece que já entendemos tudo. Não precisamos mais perguntar. Não precisamos conhecer sua história. Não precisamos investigar o que aconteceu com aquela pessoa, de onde ela veio, quais recursos internos possui, quais oportunidades teve, quais feridas carrega, o que perdeu pelo caminho, quanto esforço psíquico despende apenas para continuar existindo.

Dizemos:

— É preguiça.

E encerramos o caso.

Talvez seja justamente por isso que essa palavra seja tão sedutora.

Porque ela nos poupa do encontro com a complexidade.

Atendo muitas pessoas que chegam até mim dizendo que são preguiçosas.

Ou, mais frequentemente, que passaram a vida ouvindo isso.

“Você é preguiçoso.”

“Você não vai atrás.”

“Você não quer nada com nada.”

“Você não se esforça.”

“Fulano conseguiu. Por que você não consegue?”

Mas o que encontro na clínica, muitas vezes, é algo completamente diferente.

Encontro pessoas exaustas.

Pessoas dissociadas.

Pessoas que passaram tantos anos tentando sobreviver psiquicamente que já não sabem de onde retirar energia para desejar.

Encontro pessoas que não conseguem sustentar continuidade.

Começam e param.

Desejam e recuam.

Planejam e paralisam.

Entusiasmam-se e, pouco depois, perdem completamente a força.

Vistas de fora, parecem preguiçosas.

Mas quem conhece sua estrutura psíquica talvez perceba outra coisa.

Perceba que, em muitos casos, não falta vontade.

Falta sustentação interna.

Porque não basta dizer a alguém:

— Vá em frente.

É preciso que exista, dentro dessa pessoa, uma estrutura capaz de continuar quando a excitação inicial termina.

É preciso tolerar frustração.

Suportar espera.

Atravessar o intervalo entre o desejo e a realização.

Fracassar sem desintegrar.

Ser visto sem entrar em pânico.

Arriscar sem sentir que um erro destruirá toda a identidade.

Persistir sem garantias.

E nem todos puderam construir isso.

Há pessoas que cresceram em ambientes nos quais qualquer tentativa era ridicularizada.

Outras aprenderam que aparecer era perigoso.

Algumas tiveram seus impulsos espontâneos sistematicamente interrompidos.

Foram crianças criticadas, humilhadas, invadidas, abandonadas emocionalmente ou obrigadas a se adaptar precocemente às necessidades dos adultos.

Aprenderam a não incomodar.

A não desejar demais.

A não ocupar espaço.

A não confiar em si.

Depois crescem.

E o mundo pergunta:

— Por que você não vai atrás do que quer?

Mas talvez ninguém tenha perguntado antes:

O que aconteceu cada vez que essa pessoa quis alguma coisa?

Essa pergunta muda tudo.

Porque o adulto que hoje “não corre atrás” pode ter sido a criança que aprendeu que todo movimento espontâneo em direção à vida terminava em vergonha, crítica, abandono ou fracasso.

Há corpos que parecem parados porque, em algum lugar profundo, ainda esperam o golpe.

Há pessoas que confundem movimento com perigo.

Visibilidade com exposição.

Autonomia com abandono.

Sucesso com culpa.

Desejo com punição.

E então nós olhamos para o resultado final dessa equação e dizemos:

— Preguiça.

Como se a psique humana fosse simples.

Como se bastasse querer.

Como se todos partissem do mesmo lugar.

Como se a capacidade de agir não dependesse também de uma longa construção interna.

Mas há outra coisa que tenho observado.

E essa talvez me preocupe ainda mais.

Por trás de muitos supostos preguiçosos existe uma profunda falta de esperança.

Atendo, em sua maioria, pessoas entre 20 e 60 anos.

E, entre os mais jovens, escuto algo que me atravessa.

Uma dificuldade crescente de acreditar.

Não apenas de acreditar em si mesmos.

Mas de acreditar no futuro.

Alguns falam sobre as mudanças climáticas.

Sobre eventos extremos.

Sobre o que acontecerá com o planeta.

Sobre a possibilidade de não haver água, estabilidade, segurança ou condições dignas de vida nas próximas décadas.

A chamada ansiedade climática não é simplesmente uma invenção de uma geração “frágil”. O sofrimento relacionado ao futuro climático vem sendo documentado em pesquisas internacionais e brasileiras, especialmente entre jovens.

E o que alguns me dizem, de diferentes maneiras, é:

“É como se nós não tivéssemos um futuro.”

Então eu me pergunto:

O que acontece com a capacidade de investir libido na vida quando o futuro deixa de parecer habitável?

Por que alguém faria planos para trinta anos se intimamente não consegue imaginar o mundo daqui a trinta anos?

Por que construir?

Por que acumular?

Por que sacrificar toda a juventude em nome de um amanhã no qual já não se acredita?

Talvez estejamos diante de algo que ainda não compreendemos suficientemente.

Uma geração que recebe continuamente a ordem para produzir, competir, consumir, vencer e acumular — ao mesmo tempo em que assiste ao mundo físico dar sinais de esgotamento.

Dizemos:

— Trabalhe mais.

— Produza mais.

— Consuma mais.

— Cresça mais.

— Tenha mais.

E, simultaneamente, esses jovens ouvem que os oceanos aquecem, que eventos extremos se intensificam, que ecossistemas colapsam, que espécies desaparecem, que populações inteiras podem ser deslocadas.

Há algo quase enlouquecedor nessa contradição.

Pedimos que se adaptem ao mesmo modelo de vida que eles suspeitam estar ajudando a destruir as condições futuras da própria vida.

E quando hesitam, dizemos:

— Preguiça.

Mas existe ainda outro grupo.

Pessoas que não são exatamente incapazes de trabalhar.

Elas são incapazes de encontrar sentido na forma de vida que lhes foi apresentada.

E aqui entramos em um terreno delicado.

Porque não quero romantizar a dificuldade.

Nem transformar toda incapacidade de adaptação em sinal de profundidade.

Isso também seria ingênuo.

Há, sim, pessoas irresponsáveis.

Há quem evite esforço.

Há quem espere que outros sustentem aquilo que não deseja construir.

Há quem transforme fragilidade em álibi.

A clínica não precisa negar a responsabilidade individual para reconhecer a complexidade.

Mas também é verdade que encontro pessoas profundamente sensíveis cuja alma pulsa em direções que o mundo ao redor não sabe acolher.

Pessoas que desejariam cuidar.

Pesquisar.

Criar.

Ensinar.

Escrever.

Cultivar.

Investigar.

Trabalhar com animais.

Com crianças.

Com idosos.

Com arte.

Com a terra.

Com o sofrimento humano.

Com alguma forma de reparação do mundo.

Mas vivem dentro de uma organização social que pergunta, antes de qualquer coisa:

— Quanto isso rende?

E talvez tenhamos nos acostumado tanto a essa pergunta que já não percebamos sua violência.

Porque nem tudo o que sustenta a vida gera grande retorno financeiro.

E nem tudo o que gera grande retorno financeiro sustenta a vida.

Há pessoas com enorme potência criativa que não possuem capital para começar.

Não possuem rede de apoio.

Não possuem casa própria.

Não possuem família capaz de sustentá-las durante uma transição.

Não podem passar dois anos desenvolvendo um projeto.

Não podem estudar sem trabalhar.

Não podem errar.

Não podem tentar novamente.

Não podem adoecer.

Não podem investir.

Não podem esperar.

E depois olhamos para quem teve tempo, dinheiro, contatos, segurança, educação, proteção familiar e possibilidade de fracassar cinco vezes antes de acertar — e o usamos como prova de que “quem quer consegue”.

Será?

Talvez “quem quer consegue” seja uma das frases mais cruéis que inventamos.

Porque ela transforma toda conquista em mérito exclusivamente individual e toda derrota em falha de caráter.

Ela apaga o acaso.

Apaga a classe social.

Apaga a família.

Apaga o trauma.

Apaga a saúde.

Apaga o território.

Apaga a rede de apoio.

Apaga quem cuidou dos filhos enquanto alguém estudava.

Apaga quem emprestou dinheiro.

Apaga quem abriu uma porta.

Apaga quem apresentou a pessoa certa.

Apaga o quarto silencioso onde foi possível criar.

Apaga até mesmo o direito de falhar.

Então sobra apenas o indivíduo.

Nu - diante do tribunal social.

Se venceu, mereceu.

Se não venceu, não se esforçou.

Se é pobre, talvez seja preguiçoso.

É uma visão de mundo assustadoramente simples.

E talvez seja justamente essa simplicidade que a torne tão perigosa.

Porque, quando individualizamos completamente o fracasso, o sistema desaparece.

Não precisamos mais perguntar quais condições estamos produzindo.

Não precisamos investigar por que tantos jovens adoecem.

Não precisamos discutir acesso.

Não precisamos olhar para a desigualdade.

Não precisamos perguntar que tipo de vida estamos oferecendo.

Basta culpar quem não conseguiu.

Mas, na clínica, encontro ainda outra forma de “preguiça”.

Talvez uma das mais dolorosas.

A pessoa que precisaria encontrar a coragem de descobrir quem é por trás da própria persona.

Persona, na psicologia analítica, é a máscara social.

Não no sentido de falsidade.

Precisamos de persona.

Precisamos de formas de entrar no mundo.

De desempenhar papéis.

De participar da vida coletiva.

O problema começa quando, para sermos aceitos, precisamos amputar partes essenciais de nós mesmos.

Há crianças que percebem muito cedo:

“Isso em mim não pode existir.”

Talvez sua sensibilidade incomode.

Talvez sua inteligência ameace.

Talvez sua criatividade seja ridicularizada.

Talvez sua força provoque.

Talvez sua sexualidade não corresponda ao esperado.

Talvez sua delicadeza seja desprezada.

Talvez sua curiosidade seja tratada como insolência.

Talvez sua tristeza não encontre colo.

Talvez sua espontaneidade seja excessiva para a família.

Então ela aprende.

Esconde.

Adapta.

Recorta.

Silencia.

Constrói uma personagem capaz de permanecer vinculada.

E isso funciona.

Ao menos por algum tempo.

Até que um dia a vida começa a perder energia.

A pessoa não sabe o que quer.

Não consegue começar.

Nada a entusiasma verdadeiramente.

Procrastina.

Adia.

Passa horas diante de uma tela.

Dorme demais ou de menos.

Sente-se vazia.

Compara-se.

Culpa-se.

Chama a si mesma de preguiçosa.

Mas talvez a pergunta não seja:

“Por que você não faz?”

Talvez a pergunta seja:

“Quem, dentro de você, teria que voltar a existir para que a energia voltasse a circular?”

Porque a libido não investe indefinidamente numa vida que não reconhece como própria.

Há um limite para a adaptação.

Podemos obrigar alguém a cumprir funções.

Mas não podemos obrigar a alma a desejar aquilo que a violenta.

E, em determinados momentos, aquilo que parece preguiça pode ser uma espécie de greve silenciosa da psique.

A pessoa diz que quer.

Sua consciência diz que deveria.

Sua família exige.

A sociedade espera.

A persona concorda.

Mas algo profundo retira a energia.

Não porque o Self seja uma espécie de entidade mágica que nos conduza facilmente ao “destino”.

Não acredito nisso.

Mas porque existe, em nós, uma tensão entre adaptação e verdade psíquica.

E há vidas construídas tão longe do próprio centro que toda ação se transforma em esforço brutal.

A pessoa precisa empurrar a si mesma o tempo inteiro.

Precisa se violentar para levantar.

Se violentar para trabalhar.

Se violentar para sorrir.

Se violentar para socializar.

Se violentar para corresponder.

E nós admiramos sua funcionalidade.

Até o dia em que ela colapsa.

Então perguntamos:

— Mas o que aconteceu? Ela estava tão bem.

Talvez não estivesse.

Talvez estivesse apenas adaptada.

E adaptação não é sinônimo de saúde.

Assim como inércia não é sinônimo de preguiça.

Talvez precisemos recuperar a capacidade de fazer perguntas antes de emitir sentenças.

O que aconteceu com essa pessoa?

Ela está exausta?

Está deprimida?

Está dissociada?

Está aterrorizada?

Nunca pôde construir confiança em si?

Não consegue imaginar um futuro?

Foi ensinada a fracassar antes mesmo de tentar?

Está vivendo uma vida que não reconhece como própria?

Possui meios materiais para transformar potência em ação?

Tem rede de apoio?

Tem saúde?

Tem tempo?

Tem segurança?

Tem onde cair?

Porque até para correr riscos é preciso possuir algum chão.

E talvez este seja um dos grandes problemas do nosso tempo:

exigimos movimento de pessoas às quais retiramos o chão.

Depois julgamos a imobilidade.

Há algo profundamente cruel nisso.

Talvez a “preguiça” exista.

Claro que existe.

Mas desconfio de toda sociedade que usa explicações morais simples para fenômenos humanos complexos.

Desconfio ainda mais quando os julgados são justamente aqueles que têm menos poder.

Porque chamar alguém de preguiçoso pode ser apenas uma descrição.

Mas também pode ser uma forma de não vê-lo.

De não escutar sua história.

De não reconhecer seu sofrimento.

De não admitir nossas desigualdades.

De não questionar o mundo que construímos.

E talvez seja por isso que esse número tenha me inquietado tanto.

Não apenas porque 40% dos brasileiros atribuem boa parte da pobreza à preguiça.

Mas porque esse dado talvez diga algo sobre a pobreza do nosso próprio olhar.

Um olhar que perdeu profundidade.

Que vê o comportamento, mas não a estrutura.

Que vê a paralisia, mas não o medo.

Que vê a desistência, mas não a sucessão de derrotas.

Que vê a falta de iniciativa, mas não a ausência de esperança.

Que vê o fracasso, mas não pergunta quais portas estiveram realmente abertas.

Que vê a máscara, mas não imagina o que precisou ser amputado para que aquela máscara pudesse existir.

Talvez, antes de perguntarmos por que algumas pessoas não se esforçam mais, devêssemos ter coragem de perguntar:

Que mundo estamos oferecendo para que valha a pena levantar da cama e lutar por ele?

E mais:

quantas pessoas chamadas de preguiçosas estão, na verdade, esperando encontrar uma razão para voltar a desejar?

Porque há uma diferença imensa entre não querer fazer esforço e não conseguir mais acreditar.

E uma sociedade que já não sabe distinguir uma coisa da outra talvez esteja muito mais adoecida do que aqueles que ela julga.

 

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