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Trauma é aquilo que continua acontecendo dentro de nós
Costumamos pensar no trauma apenas como um acontecimento de grandes proporções: um abuso, uma violência extrema, uma perda devastadora.
Mas nem sempre o trauma está naquilo que, visto de fora, parece extraordinário.
Ele pode
estar na repetição de uma forma de tratamento que humilha.
Naquele apelido que todos consideravam uma brincadeira, mas que atingia sempre
o mesmo lugar.
Na sensação persistente de não ser visto.
Na experiência de falar e não ser escutado.
Na percepção de que, para continuar pertencendo, era preciso esconder partes
inteiras de si.
O trauma não pode ser medido apenas pelo tamanho aparente do acontecimento.
Ele precisa ser compreendido a partir daquilo que a experiência produziu dentro do sujeito. Uma situação pode parecer pequena para quem observa e, ainda assim, encontrar uma psique sem recursos, sem proteção e sem um ambiente capaz de ajudá-la a elaborar o que aconteceu.
Traumático é aquilo que não pôde ser integrado.
Aquilo que excedeu a capacidade psíquica daquele momento e, por isso, permaneceu como uma marca viva, uma experiência que terminou no tempo externo, mas que continua acontecendo internamente.
Nossa sociedade, porém, ainda é quase analfabeta quando se trata da complexidade psicológica.
Muito do que imaginamos saber sobre a psique é raso, fragmentado ou transmitido de maneira equivocada. Conceitos complexos são reduzidos a frases rápidas, diagnósticos improvisados e conselhos distribuídos em vídeos de poucos segundos.
Esse conhecimento superficial, quando aplicado à dor real de alguém, nem sempre ajuda.
Às vezes atrapalha.
Às vezes, sem intenção, retraumatiza.
Uma das coisas mais cruéis que podem ser ditas a alguém que sofre é:
“Mas você tem uma vida boa. Não tem do que reclamar.”
Essa frase não acolhe. Ela apaga.
Ela comunica ao sujeito que sua experiência interna não corresponde àquilo que deveria sentir. Como se as condições visíveis de uma vida fossem suficientes para explicar tudo o que se passa em seu interior.
Mas uma vida aparentemente organizada não significa uma psique organizada.
Ter trabalho, família, casa ou condições materiais não impede que alguém carregue regiões internas profundamente feridas. O sofrimento não obedece a uma contabilidade externa. Não desaparece porque existem outras coisas pelas quais a pessoa “deveria agradecer”.
Para saber exatamente o que se passa dentro do outro, seria necessário ser o outro. Seria preciso, como diziam os antigos, caminhar com seus sapatos — mas também carregar sua história, habitar seu corpo, possuir suas memórias e ter sido atravessado pelas mesmas ausências.
O outro é realmente um outro.
Essa afirmação parece simples, mas não é.
A cultura ocidental tem enorme dificuldade em reconhecer a alteridade. Frequentemente imaginamos conhecer o outro quando, na realidade, projetamos sobre ele nossas próprias medidas, valores e possibilidades.
Dizemos:
“Eu, no lugar dela, faria diferente.”
Mas ninguém está verdadeiramente no lugar do outro.
E talvez essa ingenuidade não se limite ao modo como olhamos para as outras pessoas. Ela também aparece na relação que estabelecemos conosco.
Imaginamos que somos isso ou aquilo. Construímos uma imagem sobre quem somos e passamos a viver como se essa imagem fosse a totalidade de nosso ser.
Mas grande parte dessa identidade pode ter sido formada por aquilo que ouvimos sobre nós.
A criança chamada repetidamente de fraca talvez cresça acreditando que sua sensibilidade é fraqueza.
Aquela tratada como difícil pode passar a vida tentando não incomodar.
A que nunca foi percebida pode construir toda a sua existência em torno da necessidade de ser reconhecida.
Mas será que somos realmente aquilo que disseram a nosso respeito?
Será que somos exatamente aquilo que pensamos ser?
Será que somos apenas a imagem com a qual aprendemos a nos identificar?
Da mesma forma, não somos apenas aquilo que nos aconteceu.
Podemos, contudo, ficar identificados com o acontecimento.
Podemos nos colar à imagem daquele que foi humilhado, abandonado, rejeitado ou violentado. Podemos passar a olhar para toda a nossa existência a partir dessa experiência, como se tudo aquilo que somos tivesse sido definido por ela.
Isso não acontece porque o sujeito escolheu permanecer sofrendo.
A identificação traumática não é uma decisão consciente. Ela se forma porque uma quantidade imensa de energia psíquica e corporal ficou aprisionada naquela experiência.
Uma parte da vida permaneceu ali.
Por isso é tão difícil simplesmente se afastar mental ou emocionalmente do que aconteceu.
Quando alguém traumatizado tenta falar sobre sua dor e recebe respostas como:
“Encontre a sua força.”
“Não dê atenção à sua parte sofredora.”
“Você precisa se equilibrar.”
“Pense positivo.”
“Pare de pensar nisso.”
o que se produz não é necessariamente fortalecimento. Muitas vezes, produz-se mais solidão.
A pessoa traumatizada geralmente já sabe que precisa seguir adiante. Ela já tentou parar de pensar. Já tentou esquecer. Já tentou se controlar. Já tentou ser forte.
O problema é que algo retorna.
Retorna em pensamentos, sensações, reações corporais, sonhos, escolhas, vínculos e repetições. Retorna sem que o sujeito consiga simplesmente determinar que cesse.
Porque não se trata apenas de uma ideia que poderia ser substituída por outra.
Trata-se de uma organização psíquica.
Podemos observar algo semelhante em experiências muito mais comuns.
Alguém diz:
“Você precisa cuidar melhor da alimentação.”
“Você precisa emagrecer.”
“Você precisa estudar.”
“Você precisa caminhar.”
Tudo isso pode ser verdadeiro. Mas será que saber o que deveria ser feito é suficiente para conseguir fazê-lo?
Se fosse simples, todos se alimentariam de maneira adequada, fariam exercícios diariamente, estudariam, descansariam e organizariam perfeitamente suas vidas.
Por que não fazemos aquilo que sabemos que nos faria bem?
Porque a energia psíquica — que também é corporal — não se encontra inteiramente disponível.
Ela pode estar ocupada sustentando defesas, contendo angústias, evitando colapsos, mantendo adaptações ou tentando impedir que determinadas experiências retornem à consciência.
O mesmo acontece no trauma.
Uma quantidade significativa de energia permanece ligada ao que aconteceu. O passado não está apenas guardado como uma lembrança. Ele continua participando da organização da vida presente.
É por isso que, muitas vezes, compreender intelectualmente não basta.
A pessoa pode saber que não teve culpa. Pode saber que o agressor estava errado. Pode reconhecer que o acontecimento passou. E, ainda assim, seu corpo e sua estrutura psíquica podem continuar reagindo como se algo ainda estivesse em curso.
A análise profunda e estrutural não exige que o sujeito simplesmente abandone sua dor.
Ela busca compreender por que essa dor precisou permanecer, o que ela passou a organizar, quais defesas se formaram ao seu redor e quais partes da personalidade ficaram aprisionadas na experiência.
O objetivo não é apagar o passado.
É criar condições para que a energia que ficou retida possa voltar a circular.
É importante, contudo, compreender que não somos apenas a parte que sofreu.
Há algo em nós que foi ferido, mas há também algo que não se reduz à ferida.
Quando toda a identidade se organiza ao redor do trauma, o acontecimento continua ocupando o centro da vida. O agressor, a humilhação, o abandono ou a violência permanecem determinando quem o sujeito acredita ser.
Afastar-se dessa identificação não significa negar o que aconteceu.
Não significa perdoar à força.
Não significa minimizar a dor.
Significa começar, pouco a pouco, a retirar do acontecimento o poder de definir a totalidade de uma existência.
Mas esse movimento não acontece por meio de ordens, frases motivacionais ou exigências de superação.
Às vezes, o primeiro movimento de cura não é avançar.
É finalmente encontrar um lugar no qual seja possível parar.
Um ambiente suficientemente acolhedor para chorar aquilo que ainda não pôde ser chorado.
Porque, quando a dor aconteceu, talvez não houvesse quem a recebesse.
Talvez fosse necessário amenizá-la, negá-la ou dissociá-la para continuar vivendo. Talvez o sujeito tenha precisado funcionar quando, internamente, algo havia desmoronado.
Nossa sociedade não costuma oferecer esse tipo de acolhimento.
Ela exige força, mas confunde força com produtividade.
Confunde saúde com funcionamento.
Confunde maturidade com capacidade de suportar tudo silenciosamente.
Exige que o sujeito continue trabalhando, consumindo, produzindo e sorrindo, mesmo quando partes inteiras de sua vida psíquica permanecem paralisadas.
Mas força verdadeira não é ausência de sofrimento.
Também não é a capacidade de ignorar aquilo que dói.
Às vezes, força é poder se aproximar da própria ferida sem ser novamente engolido por ela.
É encontrar alguém que não apresse, não julgue e não transforme a dor em uma lição rápida.
É poder reconhecer:
Isso
aconteceu comigo.
Isso deixou marcas em mim.
Mas isso não contém tudo o que sou.
O trauma deixa marcas.
A análise começa quando essas marcas deixam de ser tratadas como fraqueza e passam a ser escutadas como parte de uma história que ainda procura elaboração.
E talvez seja justamente ali, onde a vida parece ter ficado presa, que exista também uma vida esperando para voltar a circular.
Mais um ensaio do Blog Psimbolom escrito por Luciana Paula da Silva.

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