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Dizem então que Deus nos criou perfeitos.
Dizem que, em algum momento, fomos expulsos do paraíso. Que perdemos a própria luz. Que caímos. Que deixamos de viver alimentados diretamente pela Luz do Criador porque desejamos consciência, autonomia, potência própria.
E, nessa narrativa, a queda estaria ligada a um gesto: comer do fruto. Querer saber. Querer ver. Querer discernir. Querer, de algum modo, participar da criação não apenas como criatura alimentada, mas como criatura capaz de gerar luz.
Mas há algo profundamente estranho nessa história.
Porque, se o Criador é perfeito, por que criaria criaturas tão dependentes de Sua Luz?
Que tipo de perfeição cria seres que só permanecem íntegros enquanto estão submetidos a uma fonte externa de nutrição? Que tipo de amor cria filhos incapazes de sustentar a própria chama? Que tipo de paraíso exige inconsciência para continuar sendo paraíso?
Nós, humanos, quando minimamente saudáveis, não desejamos filhos eternamente dependentes. Não desejamos filhos incapazes de pensar, escolher, errar, discernir, criar. Não colocamos nossos filhos no mundo para que sejam apenas extensões da nossa vontade, vivendo da nossa energia, da nossa autorização, da nossa presença.
O que desejamos é que cresçam e encontrem o próprio caminho.
Que possam, um dia, caminhar com as próprias pernas. Que possam sustentar a própria vida. Que possam fazer escolhas sem precisar nos consultar a cada passo. Que tenham raízes, mas também eixo.
Então por que o Criador desejaria criaturas que permanecessem eternamente alimentadas por Ele, incapazes de gerar a própria luz?
E, se essas criaturas foram criadas com a possibilidade de desejar consciência, autonomia e criação, por que esse desejo seria tratado como pecado?
Talvez o problema não esteja no desejo de gerar luz.
Talvez o problema esteja no modo como as tradições interpretaram esse desejo.
Porque querer gerar luz não é necessariamente invejar Deus. Não é necessariamente roubar o fogo sagrado. Não é necessariamente se rebelar contra a origem. Pode ser apenas o movimento natural de toda criatura viva: sair da dependência absoluta e entrar, gradualmente, em relação consciente com a fonte de onde veio.
Um filho que cresce não trai a mãe.
Um aluno que pensa por si não trai o mestre.
Uma obra que ganha vida própria não trai quem a criou.
Então por que a consciência teria sido vivida como traição?
Essa é a pergunta que perturba e muda tudo.
Porque talvez a expulsão do paraíso não fale de uma punição divina, mas da experiência inevitável da consciência. Enquanto estamos fusionados à fonte, somos alimentados, mas não somos inteiros. Somos sustentados, mas não somos responsáveis. Recebemos luz, mas ainda não sabemos o que fazer com ela.
A consciência rompe a fusão.
E todo rompimento da fusão dói.
Talvez o paraíso seja essa imagem arquetípica de um estado anterior: um estado de dependência, de inocência, de pertencimento indiferenciado. Um estado em que não havia ainda conflito porque não havia separação suficiente para que o conflito aparecesse.
Mas crescer implica separação.
E separação implica perda.
A criança que sai do colo não perde o amor da mãe, mas perde a ilusão de que a mãe é o mundo inteiro. O sujeito que desperta não perde necessariamente Deus, mas perde a fantasia de ser sustentado por uma Luz que dispensa trabalho interno.
Talvez seja isso que chamamos de queda.
Não uma queda moral.
Uma queda na consciência.
E toda consciência, quando nasce, encontra treva.
Porque a luz própria não aparece pronta. Ela precisa atravessar matéria, sombra, instinto, medo, desejo, inveja, raiva, solidão, desamparo. Ela precisa se diferenciar da luz recebida. Precisa deixar de ser apenas reflexo para se tornar fogo interno.
Mas então a pergunta permanece: por que esse caminho precisa passar por tanta treva?
Por que a autonomia exige sofrimento tão grande?
Por que precisamos perder o paraíso para encontrar a própria luz?
Talvez porque a luz herdada não seja ainda luz conquistada.
Enquanto somos apenas alimentados pela Luz do Criador, permanecemos em estado infantil diante do divino. Recebemos, mas não elaboramos. Somos nutridos, mas não transformamos. Vivemos da fonte, mas não nos tornamos fonte.
Gerar luz exige outro tipo de estrutura.
Exige suportar o vazio sem imediatamente preenchê-lo. Exige reconhecer a sombra sem ser tomado por ela. Exige atravessar a inveja, não como crime moral, mas como sofrimento de quem ainda não descobriu a própria potência. Exige atravessar a dependência sem transformá-la em submissão, e a autonomia sem transformá-la em arrogância.
Talvez esse seja o grande drama humano: não queremos apenas receber luz. Queremos participar da criação da luz.
E talvez isso não seja pecado.
Talvez isso seja destino de consciência.
O problema é que a consciência nasce em uma criatura ainda imatura. Uma criatura que deseja criar, mas ainda quer possuir. Que deseja luz, mas ainda teme a sombra. Que deseja autonomia, mas ainda se desespera diante da solidão. Que deseja ser fonte, mas ainda não sabe sustentar o próprio fogo sem incendiar o mundo.
Por isso o caminho de gerar luz passa pela treva.
Não porque a treva seja uma punição.
Mas porque é na treva que descobrimos se aquilo que chamamos de luz é realmente consciência — ou apenas desejo de poder.
A grande questão talvez não seja: por que fomos expulsos do paraíso?
A grande questão talvez seja: que tipo de paraíso era esse que dependia da nossa inconsciência?
Se a permanência no paraíso exigia não saber, não desejar, não discernir, não criar, então talvez a expulsão tenha sido também nascimento.
Doloroso, sim.
Terrível, sim.
Mas nascimento.
E todo nascimento começa com uma expulsão.
O bebê é expulso do útero. A criança é expulsa da fusão. O adolescente é expulso da infância. O adulto é expulso das ilusões que o protegiam. A consciência é expulsa do paraíso porque já não cabe mais nele.
Talvez Deus não tenha nos lançado no caos para crescermos.
Talvez a própria consciência, ao nascer, tenha revelado o caos que já estava presente na criação.
E talvez o trabalho humano não seja recuperar uma pureza perdida, mas construir uma relação mais madura com a luz.
Não a luz que nos mantém dependentes.
Não a luz que nos infantiliza.
Não a luz que exige submissão para nos alimentar.
Mas a luz que atravessa a sombra e se torna responsabilidade.
Porque talvez gerar luz não signifique substituir o Criador.
Significa deixar de ser apenas criatura passiva.
Significa participar da criação com alguma consciência do que fazemos com a potência que recebemos.
E talvez esse seja o ponto mais difícil: não fomos criados apenas para obedecer à Luz.
Fomos criados para aprender a sustentá-la sem sermos destruídos por ela.
Mais um texto do blog Psimbolom.

Importante desígnios para podermos entender um pouco nosso desenvolvimento... parabéns Paula por auxiliar nesse processo.
ResponderExcluirMuito obrigada pelo carinho. Penso que compreender nosso desenvolvimento é também reconhecer que a expulsão do paraíso não é apenas uma queda, mas uma convocação: deixamos a dependência inconsciente da Luz para aprender, pouco a pouco, a sustentá-la dentro de nós.
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